terça-feira, 1 de outubro de 2013
Pensando alto
domingo, 22 de setembro de 2013
Um amor que se põe
segunda-feira, 16 de setembro de 2013
quarta-feira, 4 de setembro de 2013
Desalegria
segunda-feira, 2 de setembro de 2013
Em companhia do vinho
segunda-feira, 19 de agosto de 2013
Oração ao Tempo
sábado, 18 de maio de 2013
A dose
Repetições?
Tudo o que ela quer é voltar a tomar posse de si. Ser dona dos seus desejos de novo. Quais eram eles? – não se lembra.
Não é ruptura, é reencontro.
Desde que se tornou mãe. Desde que tomou posse da dor. Desde que se pôs na estrada. Desde quando?
Onde ela caminha nessa pista?
Há espaço para ultrapassar?
Para onde vai?
Larga o carro e segue a pé para não levar mais peso consigo?
Em alguns momentos ela só quer aumentar o volume do som e cantar bem alto, com o vento nos cabelos. Em outros, quer ter o privilégio de não guiar o carro, com a certeza de ainda assim estar indo.
Ela se entrega demais, se entrega muito, inteira, não sobra nada para si. Nem sabe mais como é a sua voz. Ela sai de si ao encontro do outro e deixa sua cama e sua casa vazias, sem o calor da sua presença. E depois cobra do outro o que lhe falta. Mas foi ela mesma que se tomou de si.
E então ela dança sozinha pela sala e sente o corpo como há muito tempo, com saudade de quem foi.
Para depois dar mais uma gole da bebida doce e amargar o gosto da escolha.
Exagerou na dose e a ressaca é toda sua.
sexta-feira, 8 de março de 2013
Dia da Mulher
quarta-feira, 2 de janeiro de 2013
Obras
terça-feira, 16 de outubro de 2012
Finalmente
quinta-feira, 5 de julho de 2012
Porquinho
domingo, 3 de junho de 2012
Cadeado
quarta-feira, 25 de abril de 2012
sábado, 14 de abril de 2012
Instruções para desvendar histórias
Coloque o ipod no ouvido. Sente-se num banco da sala de embarque do aeroporto de Brasília, interrompa a leitura do seu livro e observe as pessoas passando. São muitas. Todas têm um destino, uma pressa, uma ansiedade, uma alegria e uma dor. Se o que tocar no seu ipod for dramático, você verá as dores delas. De todas as cores, da roxa e da rosada. Se a música for em francês e houver um violino, você verá estampadas em seus rostos diversas saudades. Mas se a próxima faixa for alegre, será divertido observar. Verá que todo mundo é um pouco esquisito e também um pouco familiar.
sábado, 7 de abril de 2012
Um outro ponto
Ele era marginalizado. Diante da suavidade das vírgulas e do autoritarismo dos dois pontos, o ponto de exclamação era um convite às críticas. Exagerado. Era o que dizia o ponto final, sem alardes. Escandaloso… Assim o definiam as reticências, sempre escondendo uma maldade além da escrita. Quem ele pensa que é com esse entusiasmo todo? – indagava irritado o ponto de interrogação.
Por eles, a exclamação seria banida do grupo. E ponto final.
Exclamar era coisa para os sem classe. O que mais dizer de um sinal usado nos lamentáveis momentos de exaltação ou susto? O resto é puro deslumbre, pensava a gramática em peso. E os nobres não se deslumbram, apenas entreabrem a boca, fazem um curto comentário e voltam às sua inalterada pose.
Mas ele seguia alegre, sem dar ouvidos às maledicências, até porque, por falar demais, nem tinha tempo para ouvi-las. Frequentava as ofertas do varejo, aumentando vendas. Visitava a casa dos outros em nada criativos cartões de aniversário – mas nem por isso menos sinceros. Nos fins de semana, dançava samba e pagode, enquanto os outros frequentavam recitais de piano sem mover o pescoço.
Até que vieram três dáblios juntos e uma tal arroba. E o que antes eram cartas espaçadas tornaram-se e-mails frequentes, muitos por dia, entre pessoas do mundo todo, até as que se viam todos os dias. E-mail para uma demanda de trabalho. E-mail para uma urgência. E-mail para falar de amor. E-mail pra perguntar. E-mail pra responder.
Em vez de se olhar nos olhos, as pessoas começaram a olhar para as telas. Ali, era primordial depositar a emoção certa. Como dizer de uma saudade doída usando apenas um ponto final? Como falar de uma urgência com reticências? Como falar de alegria sem exclamações? Na pressa, vírgulas passaram a ser engolidas, deixando suas parentes preocupadas. Interrogações eram tão mais usadas, que sofreram estafa. Mas o ponto de exclamação, entusiasmado, estava sempre a postos. Sem ele, e-mails eram mal interpretados. Casais tinham discussões acaloradas devido a mensagens mal compreendidas. Evitar o ponto de exclamação era burrice.
E ele vinha sempre, agora mais esfuziante e sorridente, satisfeito por sua desnecessária alegria ter encontrado, enfim, um sentido.
Sem saída, os outros pontos e vírgulas se renderam, entendendo que, cada um a seu modo, todos tinham sua importância.
E no dia 24 de dezembro, na reunião da família gramatical, os ex-posudos o esperaram em peso. E quando ele entrou, precisou exclamar de susto com o que ouviu e viu: Feliz Natal!!!! – gritaram todos juntos. E aquele Natal virou Carnaval. E o que se ouvia no som era um samba de Noel.
Na caixa
Ela atravessa a rua carregando a caixa de um violoncelo. Atravessa em silêncio, mas grita para o mundo: toco violoncelo. Atravessa a rua e o meu coração, como uma faca afiada sangrando a minha inveja.
Não desejo nada de mal a ela. Nem mesmo que ela pare de tocar. Aliás, nem sei se ela toca. Mas eu gostaria de atravessar a rua carregando aquela caixa. Eu ouviria o som dos pescoços do mundo se voltando para mim – e seria um solo de violoncelo.
Tocar violoncelo me parece algo importante. Muito mais importante do que tantas outras coisas que faço. Olhar para o meu celular pra ver se chegou e-mail. Comprar pão. Andar pela calçada portuguesa com o meu salto 8, tentando preservar o salto – e o tornozelo.
De salto, carregando o violoncelo, talvez seja difícil atravessar a rua. Muitos riscos em apenas uma travessia. Tudo bem, eu abro mão do salto. Mas o violoncelo é meu – e eu daria conta de atravessar com ele, como quem leva uma bolsa a tiracolo, coisa pouca, ato corriqueiro. Eu nem pentearia os cabelos. Sairia exibindo as minhas olheiras naturais – quem as notaria? Meu violoncelo falaria mais alto. E tocaria o coração de cada um naquela cidade cinza em meio às buzinas.
Atravessar a rua carregando a caixa de um violoncelo é ser protagonista entre os figurantes. Mas eu nem ligo – não percebo a grandeza do que levo, nem o peso, nem o fato em si. É normal carregar meu violoncelo. Ele é meu grande companheiro. Somos eu e ele, nos completamos. Eu e meu violoncelo.
Mas agora eu não posso falar mais. O sinal abriu para os pedestres e eu preciso atravessar a rua. Eu e ele, o meu violoncelo.
segunda-feira, 19 de março de 2012
Janelas
Da janela de casa, a ilusão de segurança entra em mim, encontrando abertas todas as portas. Pela fresta entra um resto de medo e escapam alguns sonhos.
Do alto do arranha-céus, minha janela é observatório de formigas. Da janelinha do avião, anseio pela aterrissagem enquanto atravesso o mar de algodão. Nos quadradinhos do trem, a velocidade pinta quadros cor de paisagem.
Dos meus olhos, janela de mim, vejo um mundo que é só meu. Janelinhas mínimas para tudo ver. De vez em quando encontro outras janelas que só me veem a mim. Uma janela contempla a outra e dali podem vir relatos, abraços e convites para um café. Curiosas sobre as outras janelas, as nossas estão sempre enganadas.
Janela. Para o jardim da praça. Para a casa do vizinho. Para a alma do amigo. Para emoldurar a vida, criando romances de bobos fatos.
Janela de inventar histórias. Câmera que não enquadra: os objetos é que escolhem como se enquadrar. Janela de sonhar. Ou de jogar sonhos pela janela.
A TV é janela tecnológica. Mudo a paisagem constantemente – e não me contento com nenhuma delas. No computador, abre-se a janela para um mundo sem fim. Um país de maravilhas que nos aprisiona pequenos, angustiados como coelhos sempre atrasados. Fechamos o notebook, exaustos, para finalmente enxergar a simples janela de abrir.
Da janela pra fora, desejo de liberdade. Da janela pra dentro, a história do vizinho em quadrinhos.
As ideias que me vêm são janelas floridas. No papel viram portas. Entro para ver o que há.
Apaixonada, observo a janela do outro, que me dispara o coração e me atiça a curiosidade. Mas se sou eu a paixão do outro, do meu parapeito eu o assisto a me fazer serenata.
A vida é uma sequência de janelas e portas, janelas e portas, sonho e realidade.
Paixão é janela. Amor é porta. Decote e nudez. Namoro e casamento. Gravidez e filho. Preconceito e conceito. Janelas e portas, janelas e portas. O segredo é entrar e criar novas janelas, emoldurar outras cenas, fazer das verdades sonhos enjanelados.
Para que a vida, parede branca, tenha sempre novos quadros para contemplar.
quinta-feira, 8 de dezembro de 2011
Eu odeio:
Embora todos eles, em algum momento, sejam necessários.
E ponto final.
Adoro ponto final.
terça-feira, 13 de setembro de 2011
Colheita
Eu procurava o amor em jardins de cactus. Vinha buscando o fruto em árvores erradas, e nas mordidas sentia o gosto azedo, que amarga no fim da boca. Colhi amores podres, comidos pelo tempo e dor.
Foi preciso paciência – e um outro tempo – amadurecendo um fruto para colhê-lo doce, suave, terno e delicado. Simples como naturalmente é.
