quarta-feira, 7 de julho de 2010

Noite livre.

Houve uma noite em que ele não prestou atenção. Entre uma risada e outra, suas mãos depararam com as dela, seu corpo encostou quente em alguma parte do dela. E o tempo foi longo. Do buteco para a pista de dança. Da cerveja à vodca. Do primeiro beijo à dança de rosto colado que mais parecia o corpo fazendo declaração de amor. Houve essa noite em que seu corpo disse e o dela respondeu. Não havia receio, nome, raciocínio ou amanhã. Foi uma noite comprida e ainda houve tempo para um boteco sujo, onde o abraço ficou ainda mais fácil e bonito. E terminou em sanduíche. Ele acordou de ressaca no dia seguinte e, depois de muitos copos d'água, voltou a montar vigília, com olhos de coruja, sem perder um só de seus próprios movimentos. Aquela tinha sido apenas a sua noite de folga.

quinta-feira, 27 de maio de 2010

Um canteiro.

Quem sabe um dia um milagre me leve a me tornar íntima das plantas. E me dê um fim de vida com a pá no bolso, de olho nas folhas secas e ervas daninhas. As mãos calejadas sujas de terra, a roupa surrada e macia, o rosto enrugado entretido pelo prazer. E a corcunda a olhar para baixo em busca do que cresce, contemplando o passado-futuro. Terra, terra e Terra. Finalmente amiga da vida. E, como aquela minha querida, uma morte plena e repente pra virar um bom adubo. Amém.

quarta-feira, 12 de maio de 2010

Um sopro.

A palavra insinuar veste um vestido. Leve e transparente. Nada afirma, insinua. Curvas sinuosas por baixo do vestido. Vestidos dão asas à imaginação. São eles as asas. Vestidos vestem. Vestes. Vento no vestido. Vestidos voltam no tempo, velhos tempos do vestido. Vestidos, volta, saia rodada. Vento por baixo da saia do vestido. Vestidos mudam de forma, revelando, não as formas, gordas ou magras, mulheres. Vestidos deixam respirar. Insinuam sinuosas curvas, perigo adiante. Suspiros. Vestidos vestem despindo. Vestidos são a minha forma de me vestir de vento.

quinta-feira, 6 de maio de 2010

O ponto.

Venho de um mar revolto que não me dava descanso, um gosto de sal na garganta e uma sede, em meio a tanta água. Venho cansada da luta. E a minha sede era de água e paz.

Eu não procurava um pouso porque já tinha o meu próprio – que pode não ser macio nem mágico, mas tem o meu cheiro. Eu procurava o que não sei. Procurava parar de procurar. E já vinha desacelerando a busca, numa desistência doce.

Era a paz que eu procurava. A paz que me sorri bem puro. A paz que não é tédio. Que dá colo pra descansar, mas também é capaz de surpreender e fazer o coração bater forte, a circulação aumentar, o corpo se sentir vivo. A paz que atormenta. Paz que é um ponto.

Que é chegar em casa sorrindo. Uma insônia boa. Certeza que não mata. Saudade que revela. Que é quando a imperfeição encontra lugar confortável em nós. É sentir no outro uma semelhança macia. Saber um pouco do que vai no outro, sem saber quem é o outro.

Estou apaixonada por uma tempestade suave em mim.

sexta-feira, 30 de abril de 2010

Amanhã, espero por você em BH.


Se você perdeu o lançamento do livro em novembro de 2008. Se você tem o livro e quer um autógrafo. Se você até hoje não havia conseguido comprar o livro. Se você quer dar uma passeio gostoso no feriado. Se você quer conhecer um café novo. Se você mora perto da Página 1. Se você quer me dar um abraço. Ou só porque amanhã é sábado. Apareça. A partir das 10h30, vou estar à sua espera. Um beijo.

terça-feira, 30 de março de 2010

A paz no colo.

Ela não se mexe: o filho dorme com a cabeça apoiada em sua barriga. Aquele, que há poucos anos estava lá dentro. Continua sendo parte dela. No aparelho de som, a sequência de músicas conta a sua própria história. Rápidas e ainda intensas, as cenas passam ao som de uma trilha que vai acendendo imagens e rastros diferentes. Ela se permite sentir, com a paz e a tristeza que fazem parte de ser. A alegria de amar de novo, a serenidade de se sentir companheira, amada e ponto. Pensa no amor que passou, no sentido daquele encontro. Lembra do amor que se foi da vida, deixando o filho que ainda é amor. E se convence de que alguns (des)encontros são parte da construção. Desapegar-se para seguir em frente. Trazemos tudo conosco, ela pensa, tudo aqui dentro a fazer parte. Assim como deixamos para o outro. E o que deixamos, não nos cabe. Ela pensa e chora, pensa e sorri, sempre quase imóvel, porque ali o filho dorme em paz. Ali dorme a sua paz. Haviam tido um embate minutos antes, um desses impasses cotidianos entre uma mãe e seu filho pequeno. Agora está tudo calmo. Passou. Como tantas coisas, como o tempo, nunca em vão. Ficam as lembranças, algumas ainda dóem, outras trazem sorrisos. Tudo dentro, respirando em nós e ao redor de nós. Vivo e em movimento. Vivo e em sono tranquilo, como o filho sobre a barriga.

quinta-feira, 4 de março de 2010

Final feliz.

Ela foi viver um amor de verdade. Ele ficou com a falta dela a lhe fazer companhia – para ele, não poderia haver par melhor.