segunda-feira, 2 de setembro de 2013

Em companhia do vinho

Acendi um cigarro, enchi uma taça de vinho e me sentei na poltrona da varanda. Busquei um disco antigo, sentindo falta de mim. Deixei vir as dores passadas, sem saber de onde vinham. Sorvi o cigarro inteiro em busca do que deixei pelo caminho. A melodia me contou uma intensidade que eu já desconhecia. E acordei de um anestésico de longa duração, como se o tempo em busca da sobrevivência tivesse me enterrado junto com os que já foram. Zumbi de mim mesma, busquei num espelho quebrado a imagem do que já fui. No cinzeiro, catei os restos do que sonhei. Andei apressando o tempo para não pensar. De novo você, melancolia. Gosto do seus fonemas. Por que fugir de mim mesma se eu me faço boa companhia?

segunda-feira, 19 de agosto de 2013

Oração ao Tempo

Tudo o que lhe peço, Tempo, é que me salve do meu coração. Dessa entrega absurda de ir até o outro e me deixar sem mim. O que lhe peço, Tempo, é o caminho do meio. Aprender a receber antes de me entregar. Ver além. Peço que me devolva a mim mesma. Que eu me reconheça e me acolha. Me aqueça em meus buracos escuros e definitivamente me toque. Que eu saiba cuidar somente do que me cabe. E deixe ir. E deixe vir. Natural, inteira e suavemente. Que a vida me encontre distraída, sem a ânsia de buscar o que não sei. O que não vale. O que não é. O que lhe peço, Tempo, é a aceitação do tempo e da vida como ela é. Sei que ela me aguarda plena e legítima. Mostre a ela o caminho até mim. Enquanto isso, me adormeça em paz até que a verdade me alcance como um beijo. Tire de mim essa ânsia de ser feliz, inverta a ordem das coisas e assopre no ouvido da alegria o momento de me capturar sem volta. Que eu me aquiete na paz do merecimento, sem dar um passo ou um pio. Que apenas contemple. Que eu resista à tentação de correr para o que ainda não está pronto. Que eu me apronte para a surpresa de um dia simples. Que eu acorde como quem nasce. Amém.

sábado, 18 de maio de 2013

A dose

Ela abre um espumante barato e brinda sozinha à volta da solidão. Não aquela que dói e fere, mas a solitude escolhida, que lhe abre um espaço macio para ser. Ao primeiro gole, percebe: o espumante é demi sec. Um equívoco para ilustrar a vida. O gole doce na taça rasa antiga de cristal azul que foi da mãe.

Repetições?

Tudo o que ela quer é voltar a tomar posse de si. Ser dona dos seus desejos de novo. Quais eram eles? – não se lembra.

Não é ruptura, é reencontro.

Desde que se tornou mãe. Desde que tomou posse da dor. Desde que se pôs na estrada. Desde quando?

Onde ela caminha nessa pista?
Há espaço para ultrapassar?
Para onde vai?
Larga o carro e segue a pé para não levar mais peso consigo?

Em alguns momentos ela só quer aumentar o volume do som e cantar bem alto, com o vento nos cabelos. Em outros, quer ter o privilégio de não guiar o carro, com a certeza de ainda assim estar indo.

Ela se entrega demais, se entrega muito, inteira, não sobra nada para si. Nem sabe mais como é a sua voz. Ela sai de si ao encontro do outro e deixa sua cama e sua casa vazias, sem o calor da sua presença. E depois cobra do outro o que lhe falta. Mas foi ela mesma que se tomou de si.

E então ela dança sozinha pela sala e sente o corpo como há muito tempo, com saudade de quem foi.
Para depois dar mais uma gole da bebida doce e amargar o gosto da escolha.

Exagerou na dose e a ressaca é toda sua.

sexta-feira, 8 de março de 2013

Dia da Mulher

Não me dê flores só no dia 8 de março. Escolha qualquer um dentre os outros 364 dias do ano e repita a delicadeza mais vezes - de preferência, sempre em datas inesperadas. Me deixe falar de amor. Ou me cale a boca com um beijo. Não sou igual a você. Nem melhor, nem pior. Sirva a minha taça de vinho e façamos um brinde à diferença. Vamos juntos fazer o jantar: você coloca a mesa, eu como. E na hora de dormir, quando o cansaço invadir o seu corpo, abra um espaço nele pra mim. Me acolha e me aqueça de carinho, porque é no seu colo que eu quero morar.
Amém.

quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

Obras

Casamento é uma reforma que nunca se conclui. É preciso aprender a fazer festa a cada cômodo erguido, tomando cerveja no cimento e comendo um churrasco feito nos tijolos da construção.

terça-feira, 16 de outubro de 2012

Finalmente


Provavelmente ninguém vai lhe ensinar isto. Dê um jeito de aprender, você vai precisar. Saiba desistir, porque em algum momento da vida isso vai ser necessário. Focar o que é, e não o que poderia ter sido. Colocar a vida à frente do orgulho. Seus desejos à frente do que os outros desejam pra você. Uma ousadia, um disparate, uma loucura, eu sei. Provavelmente ninguém vai lhe ensinar a entender o que você realmente deseja. Mas dê um jeito de aprender. Em algum momento da vida, desistir vai exigir mais coragem que seguir em frente. Desistir será o mesmo que parar de tentar. E parar de tentar pode ser finalmente o começo.

quinta-feira, 5 de julho de 2012

Porquinho

Ele economiza vida para que lhe sobre mais. Na tentativa de evitar a falta, vive na falta. Se ele tivesse um slogan, seria "Viva com moderação". Pra não gastar.